“Nós somos sentimentalmente analfabetos. E esse é um fato lamentável que não diz respeito apenas a você e a mim, mas sim praticamente a todo mundo. Nós não aprendemos nada sobre a alma. Somos terrivelmente incompetentes tanto sobre nós próprios como sobre os outros. Ninguém tem a idéia de que precisamos aprender algo a respeito de nós mesmos e de nossos sentimentos. A respeito de nossos medos, de nossa solidão, de nossos ódios. Nesse ponto estamos perdidos, incapazes... Como é que vamos compreender os outros se nada sabemos a respeito de nós mesmos?”
(Ingmar Bergman, em CENAS DE UM CASAMENTO)
Índice
Introdução
A Origem do Nome
Breve Histórico
Apresentação
Justificativa
Objetivo Geral
Localização
Fontes de Sustentação Econômica
Critérios de Vagas e Mensalidades
A Dinâmica do Projeto de Gente
Avaliação Processual
Estratégia para Implementação do Projeto de Gente
1a Fase – Implantação
Cronograma da 1a Fase – Implantação
2a Fase – Execução
A Equipe Organizadora do Projeto de Gente
Anexos
Sobre a Origem do Nome
O Arquétipo do Projeto de Gente
Ata de constituição e Eleição da Direção da Associação Projeto de Gente
Descoberta, Desenvolvimento e Integração
“É necessário que uma causa sentimental, uma causa do coração se torne uma causa formal para que a obra tenha (...) a vida cambiante da luz”.
G.Bachelard
Introdução
Pode, para muitos, parecer estranho que a apresentação formal de um empreendimento seja iniciado com uma epígrafe deste tipo. Entretanto, as motivações para que esta citação encabece este documento ficarão claras ao longo do texto.
Nele, os temas usualmente classificados como filosóficos ou teóricos, têm a mesma importância dos denominados práticos ou objetivos; não são, portanto, antagônicos, ou sequer separados por alguma fronteira. Formam, de fato, uma unidade: não há um sem o outro, nem o outro sem um.
O que queremos dizer, desde já e com muita clareza, é que o Projeto de Gente se funda em: amor, solidariedade e trabalho.
Estes conceitos – amor, solidariedade - não tiram o caráter objetivo do projeto – do trabalho -, pois estamos falando de energia real e construtiva. Não se trata, portanto, de mera filosofia, ou palavras bonitas e poéticas; tais conceitos são, de fato, matéria-prima concreta para a difícil organização deste empreendimento.
Os conceituados biólogos chilenos Maturana e Varela nos dão suporte ao escrever:
“Descartar o amor como fundamento biológico do social, assim como as implicações éticas do amor, seria negar tudo que nossa história de seres vivos, de mais de três milhões de anos de idade nos legou... Só temos o mundo que criamos com o outro; só o amor nos permite criar este mundo em comum.” (em “A Árvore do Conhecimento”)
Estes cientistas falam do amor como sólido elemento que permite a formação harmoniosa da rede de interdependências entre todos os seres, animados ou não, sem submissão ou opressão. Seres que, livres para expressar seus desejos e necessidades, vão interagir construindo vida.
A Origem do nome*
Projeto de gente, expressão utilizada, muitas vezes sem querer, para desqualificar qualquer criança – principalmente aquela pequenina -, como se ela fosse um ser insignificante, incapaz de ter percepções e sentimentos sobre o que se passa a sua volta, como se fosse um nada, um zero à esquerda, ou apenas um esboço, um projeto.
Para desfazer a má impressão de um significado que parece estar tão carregado de desprezo por um ser recém chegado ao planeta, quisemos, então, dar uma outra conotação à esta expressão: toda criança é um projeto sim, mas um projeto que merece profunda atenção e cuidado. Assim, está subvertida a interpretação descuidada e cruel.
Por isso, o nome: Projeto de Gente - um trabalho voltado para as crianças que tem, acima de tudo, a intenção de reconhecer, valorizar e favorecer a legítima manifestação do projeto de vida que cada um traz, misteriosa mas legitimamente, inscrito em si mesmo.
* Ver em Anexos, pg. 23: Sobre a Origem do Nome
Breve Histórico
Ao constatar, ao longo de 24 anos de prática como clínico geral, médico homeopata e psicoterapeuta, a insuficiência do modelo de saúde em promover um estado de bem estar realmente integral, o Dr. Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti reuniu um grupo de amigos, profissionais de diferentes áreas mas com semelhante anseio, para discutir sobre como buscar esta possibilidade. Formou-se, assim, o grupo de trabalho responsável pela elaboração inicial do Projeto de Gente e que também gerou a criação, em março de 2003, da Associação Projeto de Gente (CNPJ – 05.959.844/0001-88).
Estas pessoas passaram a realizar encontros semanais com o intuito de elaborar e implantar um método de trabalho no qual se contemple uma aparentemente simples, porém básica, constatação: o estado de bem estar é percebido quando estamos bem “internamente”, isto é, quando a pessoa se sente bem consigo mesma, saciada em relação às necessidades básicas pessoais.
Uma conclusão aparentemente óbvia, não fosse a dificuldade que cada um de nós tem em reconhecer quais são essas necessidades, pois nascemos sem nada saber a respeito de nós mesmos; isto é, não temos consciência de quem somos. Além disso, se não sabemos quem somos, também aqueles que nos recebem e nos rodeiam, tampouco nos conhecem. Esta é a tremenda vivência a que estamos expostos ao nascer: não nos sabemos e ninguém sabe quem somos.
Esta observação – “estou bem quando estou bem comigo mesmo” -, embora simples, é extremamente delicada e de complexa organização, pois, estar bem consigo mesmo, eqüivale estar saciado nas necessidades pessoais básicas, mas também implica estar assegurado quanto a possibilidade de reconhecer, serena e claramente, tais necessidades; e, jamais devemos esquecer, nossas necessidades básicas se expressam, indistintamente, tanto no campo emocional quanto no físico.
De fato, para nos sentirmos realmente bem será preciso perceber que somos uma unidade dinâmica: corpo (físico - visível) e alma (psique, mente - invisível), corpo-alma, corpoalma.
Alguém impedido de alcançar uma fonte alimentar básica para sua existência vai, inevitavelmente, apresentar sintomas de carência deste elemento. Por exemplo, se lhe falta água, os sinais de desidratação aparecerão sem dúvida.
Se do ponto de vista objetivo isto salta à vista, com a mesma clareza podemos refletir a respeito do invisível mundo de nossa sensibilidade.
Se não reconhecemos e atendemos nossas necessidades emocionais essenciais – uma sensibilidade completamente pessoal - iremos, também sem dúvida, manifestar sinais. Sinais que ficarão claros em ações confusas e numa angustiada e sofrida expressão do ser em sua relação cotidiana com o mundo.
Tais necessidades emocionais – nem boas nem más - são, podemos dizer, nossa identidade e nossa intimidade: nossa Individuação, nossa singularidade. Uma sensibilidade que, embora com conteúdos compartilhados com todos os demais seres humanos, é, em seu arranjo final, absolutamente única, pessoal. O que estamos dizendo é que, assim como somos constituídos das mesmas substâncias – glicose, glóbulos vermelhos, sódio e potássio, por exemplo – e ninguém as tem organizadas da mesma maneira (uma quase impossibilidade estatística), o mesmo acontece em relação ao mundo das emoções e sensibilidades. Todos possuímos as mesmas – medo, insegurança, alegria, tristeza, por exemplo – mas, também aqui, as organizamos de um modo único (ninguém sente medo como o outro o sente): a INDIVIDUAÇÃO. Assim, o que é particularmente sensível a um não o será necessariamente para outro; o que não significa nem maior nem menor vantagem ou superioridade, apenas distingue.
O psicólogo James Hillman sintetizou, de modo simples e claro:
”...para se entender a vida humana (não podemos) omitir algo essencial: a particularidade que você sente que é você.” (em “O Código do Ser”)
Entre os seres humanos o conhecimento desta singularidade – dado que não a sabemos de antemão - é alcançado através das experiências que o cotidiano nos oferece.
Este projeto de trabalho chama atenção para a imensa responsabilidade dos adultos, que devem oferecer campo adequado para que suas crianças tenham a mais ampla possibilidade de conhecer e respeitar a si próprias; possibilitando, portanto, o reconhecimento do amor-próprio que alimenta a própria individuação e a construção de uma serena auto-estima, bases para o exercício do respeito ao outro e do direito de ser singular e incluído socialmente.
O desenvolvimento de uma individuação sadia gera exatamente o contrário de um movimento egoísta, individualista (daí a importância do termo individuação, e não individualidade, para que exista uma clara distinção entre os dois movimentos), sendo, portanto, base também para a construção de uma sociedade sem preconceitos, serena, progressivamente evoluída e saudável.
Fica também claramente evidenciado que este projeto é também um projeto de saúde, saúde em sua manifestação mais integral e plena. Aliás, a este respeito disse o médico e educador polonês Janusz Korczak: “Sem uma infância serena, toda a vida, em seguida, é apenas uma enfermidade.”
Queremos, portanto, sublinhar um ângulo, para nós fundamental, em relação ao amplo problema do desenvolvimento e integração de nossas crianças e jovens à uma vida ativa e plena: o freqüente desinteresse, e eventual desprezo, por sua Individuação. Tal desinteresse, é sempre bom lembrar, se dá por motivos variados e, muitas vezes, compreensíveis.
Pois bem, com o aprofundamento dessas e outras questões, o grupo atraiu adeptos e cresceu. Todos tinham, agora, uma certeza: o estado de se sentir bem consigo mesmo devia ser trabalhado desde a mais tenra idade, com a criança, com os pequeninos ou, se quiserem, com os pequeninos projetos de gente.
Apresentação
O Projeto de Gente não é um esboço, é antes, um arremesso de idéias e ideais de pessoas que acreditam em uma realidade de paz e aconchego para que crianças pequeninas, com seus muito próprios projetos, conquistem seus espaços e se tornem adultos saudáveis, cidadãos responsáveis, plenos e satisfeitos, conscientes de seus direitos e deveres e felizes.
Foi no pensamento de Samuel Hahnemamm – criador da Homeopatia; no trabalho de Carl Gustav Jung e de D. Winnicott; nos estudos e teses defendidas pelo Prof. James Hillman; na Pedagogia de Paulo Freire; na experiência da Escola da Ponte, em Portugal – dirigida pelo educador José Pacheco e apresentada a nós pelo brasileiro Rubem Alves; nas práticas modernas de terapia energética e na estrutura do antigo Santuário da Saúde de Esculápio, em Epidauro, que o Projeto de Gente, a princípio, encontrou sustentação teórica, filosófica e prática.
O Projeto de Gente será um espaço de atendimento às crianças no qual, durante as atividades desenvolvidas, estarão criadas condições objetivas para que elas possam, com naturalidade, reconhecer-se em suas sensibilidades, possibilidades, limitações, necessidades e desejos; reconhecer seus parceiros no cotidiano, como seres únicos, também com suas próprias sensibilidades, possibilidades, limitações, necessidades e desejos; além disto, prazerosamente, aprenderão a perceber a alegria do conhecer e do saber. Deste modo, conquistarão metas que serão ferramentas úteis tanto para a manifestação de suas singularidades quanto para uma plena inserção social. Aqui já cabe dizer que aprenderão com prazer porque o conhecimento dar-se-á de acordo com seus interesses.
É importante que fique claro que não estamos construindo uma escola. De todo modo, consideramos esta semelhança – que, adiante, ficará ainda mais clara - um aspecto importante, uma vez que a escola é um canal natural para a obtenção de conhecimento e de inclusão social; canal pelo qual todas as crianças devem – ou deveriam – caminhar na construção de sua cidadania.
Fazendo uso dos elementos da escola formal a que as crianças já estão acostumadas, estaremos alcançando várias outras metas, além da atenção à Individuação: melhora em seu desenvolvimento pedagógico escolar; desenvolvimento de habilidades psicomotoras; socialização; expansão de auto-estima, etc. Entretanto, vale reafirmar, a todo instante estaremos aplicados ao objetivo mais amplo e fundamental do projeto: observar, respeitar e estimular a expressão das manifestações pessoais de cada criança para que possam reconhecer seus recursos e limitações: seu ser.
Ao longo da elaboração do projeto, descobriu-se a estrutura pedagógica que se revelou, para nós, como a mais afinada com as nossas idéias: as Escolas Democráticas ou a Pedagogia Libertária. Esta estrutura é, basicamente, definida por duas características principais:
1- A constituição de assembléias abertas a todos os participantes da comunidade escolar, onde são discutidos, livremente, temas de interesse da escola e sua gestão, rotinas e questões pedagógicas, sendo o voto um direito de todos, sem distinção de idade, cargo ou função,
2- A liberdade que o estudante encontra em optar por seu próprio percurso de aprendizagem, de acordo com seus interesses e paixões.
A Pedagogia Libertária é inspirada e relacionada ao pensamento e prática de educadores como Jean Jacques Rousseau, Leon Tolstoi, Janusz Korczak, Johan Heinrich Pestalozzi, Alexander Sutherland Neill, Paulo Freire, dentre outros. Atualmente, há cerca de 1500 escolas democráticas espalhadas pelo mundo, com uma imensa diversidade de experiências reunidas em uma rede de trocas de informações e apoios mútuos.
Este documento não pretende – nem poderia - esgotar a descrição da metodologia de trabalho do Projeto de Gente; entretanto, é importante detalhar algumas particularidades que distinguem este projeto de trabalho. Este detalhamento está descrito no item “A Dinâmica do Projeto de Gente”.
Neste ponto sugerimos a leitura do texto, anexo à página 18, que fala do arquétipo, isto é, da estrutura invisível, mas muito presente e elucidativa, que anima o Projeto de Gente.
Justificativa
Vivemos em um país no qual o Índice Gini aplicado à distribuição de renda mensal dos domicílios particulares é basicamente inalterado a cerca de 26 anos (até 2006, modificava-se, porém sempre para pior; felizmente, neste ano, manifestou-se discreta melhora) – dado IBGE/UNICEF; onde cerca de 57 milhões de pessoas estão abaixo da linha de pobreza e 24,7 milhões em extrema pobreza; onde, de um ponto de vista quantitativo, para se erradicar a extrema pobreza seria necessário não mais que 1% da renda do país e com mais 5% se erradicaria a pobreza.
Este empreendimento percebe nestes (poucos) números a representação de uma força que atinge a todos nós e a todas as instituições sociais – afinal construídas por nós - e também delas emanam. Somos todos, portanto, atores extremamente importantes na organização e reorganização deste panorama.
Uma criança pode aprender com seus pais, ou no colégio, que os pescadores não devem matar pequenos peixes e nem as fêmeas em época de desova, sob pena de destruírem sua fonte de vida. Afortunada a criança que aprende que deve ser protegida e que tem esse direito. Mais afortunada, ainda, aquela que sente que é protegida e compreendida. E, afortunada é a sociedade que sabe, bem lá no fundo, que a proteção não é só um direto da criança, senão de toda a espécie.
Há, infelizmente, no mundo inteiro, estatísticas que revelam as míseras condições de milhares e milhares de crianças esfomeadas, sedentas, órfãs, vítimas de variadas guerras, de abusos diversos, mutiladas, cooptadas pela ilusão do poder armado e financeiro do tráfico de drogas, usadas pelo mundo oficial como mão de obra barata, escravas, radicalmente excluídas de qualquer processo que habilita alguém a ser reconhecido como cidadão; e há, também, queremos reafirmar, dada sua importância como motivação básica do projeto, a particular desatenção em relação às necessidades pessoais e intransferíveis de cada ser; aos impedimentos a seu desenvolvimento mais natural; queremos apontar para a muito freqüente desqualificação da Individuação de cada ser.
O Projeto de Gente apóia, desde já, sua atuação em um profundo entendimento do que seja uma organização socialmente responsável e se utiliza da definição proposta pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social (entidade fundada em 1998 por um grupo de empresários com o intuito de promover exatamente esta prática) que diz: “ uma organização que se volta para o exercício da responsabilidade social é fundada em relações éticas e transparentes com todos os públicos com os quais se relaciona e pela elaboração de metas (...) compatíveis com o desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais para gerações futuras, respeitando a diversidade e promovendo a redução das desigualdades sociais”.
A intenção e principal justificativa do Projeto de Gente é colaborar na organização de uma metodologia absolutamente compromissada com o cuidado e consideração aos pequenos e singulares “projetos de gente” espalhados por todos os cantos: com ou sem teto, com ou sem camisa, com ou sem sapatos, oriundos da riqueza ou da pobreza, pois a condição de desatenção e desconsideração quanto à sua Individuação - a imensa surdez ao grito da vocação vital e singular de uma criança - não conhece qualquer fronteira. E, já vimos, é preciso que cada um descubra sua vocação vital para que possa, então, desenvolver seu imperativo e delicado projeto de vida; e, deste modo, oferecer-se, saudável e inteiro, ao mundo.
Cada ser humano é completamente singular - como nenhum outro de qualquer outra espécie. Cada um pode escolher singulares maneiras para lidar com uma mesma situação, e a chance de perceber e respeitar o outro em seu direito de livre expressão aumenta extraordinariamente ao perceber os próprios direitos respeitados. Integração real e duradoura acontece quando os componentes de uma comunidade encontram a possibilidade de descobrir, desenvolver e manifestar suas aptidões de modo livre e responsável. Um radical e ético exercício de autonomia e solidariedade... e claro objetivo do Projeto de Gente.
No seu plano de trabalho, responsabilidade e inserção social, autonomia e solidariedade, alegria e aprendizado, além da busca constante de uma estrutura econômica lucrativa e saudável, onde todos ganham, serão as moedas correntes na contabilidade e avaliação do sucesso deste empreendimento. Lucros, aqui, avançam para além do capital financeiro.
Administradores e investidores financeiros estarão cientes deste paradigma e, junto aos idealizadores do trabalho, buscarão estratégias modernas, eficientes e capazes de manter vivos seus propósitos.
Objetivo Geral
A citação do significado da expressão ‘’Cultura da Paz’’, segundo a UNESCO, irá ajudar na compreensão dos objetivos do Projeto de Gente:
“A Cultura da Paz é a paz em ação, isto é, o pleno respeito aos direitos humanos no dia a dia das pessoas. Trata-se de criar condições para que as pessoas sejam capazes de conviver, de criar um novo sentido de compartilhar, ouvir e zelar umas pelas outras. Implica assumir a responsabilidade pela participação numa sociedade democrática que luta contra a pobreza e a exclusão social, ao mesmo tempo que garante a igualdade política, a eqüidade social e a diversidade cultural.”
Toda nossa estratégia estará, em algum ponto, ligada a este tema.
Outro ponto de grande importância e também diferencial neste empreendimento é a profunda valorização daqueles que fazem mater-paternagem das crianças.
Usamos o termo mater-paternagem para, merecidamente e com muito respeito, incluir todos aqueles que cumprem, por variadas motivações, a delicada função de pais e mães de qualquer criança. Ora, um projeto que pretende oferecer-se como campo de desenvolvimento para qualquer criança não pode deixar de valorizar aqueles que certamente foram, e provavelmente ainda são, fundamentais – muitas vezes apenas da forma possível - à sua existência. Assim, sólidos canais de interlocução serão estabelecidos com os responsáveis das crianças. De fato, mais que simples interlocução, serão co-participantes na gestão do projeto.
O Projeto de Gente oferece, em síntese:
1- atenção à Individuação – um lugar onde não se valoriza apenas a média ou, pior e por lógica, o superior (qualificado, elogiado) e o inferior (desqualificado, humilhado);
2- uma forma de estudar que, ultrapassando um mero treinamento cognitivo, funda-se em trocas afetivas e emocionais que proporcionam estímulo e alegria criativa a este ato – no Projeto, a hora de estudar, fazer deveres é vivida com grande prazer, sendo impossível dissociá-la da hora do lazer;
3- contribuição ao desenvolvimento pedagógico da criança em sua escola – isto é, contribui para que suas crianças sejam capazes de desenvolver suas habilidades e se aprofundar em qualquer área do conhecimento humano que lhes atraia;
4- desenvolvimento da consciência corporal que estimula a aquisição de força interior e alegria;
5- o desenvolvimento do saber cuidar através da promoção de autonomia e solidariedade, respeito ao outro e contato com o amor-próprio - isto é, busca a formação de cidadãos responsáveis por suas ações e capazes de determinar o curso e a dimensão de suas atividades, ajustadas consigo mesmos e capazes de aprender com as diferenças;
6- promoção e exercício prático, objetivo e cotidiano de uma real Cultura para a Paz; e
7- saúde.
Localização
Há algum tempo vínhamos pensando na hipótese de ganhar experiência e força iniciando o trabalho em algum lugar pequeno. Percebemos uma possível vantagem em iniciar o projeto em um local menos tensionado pela queda de braço que se organiza entre as estruturas da cidade grande; um lugar onde, quem sabe, poderemos com mais facilidade alcançar, além das crianças, seus pais, mães, avós e avôs, abranger outros cenários de atuação, envolver mais atores, mais saberes e necessidades.
Foi, então, que apareceu Cumuruxatiba em nosso horizonte. Neste lugar, ponto do primeiro encontro entre os europeus com os nativos da terra que viria a se chamar Brasil, campo primário da extraordinária mestiçagem que combina qualidades e que, assim, organiza novas possibilidades, encontramos as condições mais propícias para assentar o Projeto de Gente.
Fomos apresentados por um descendente da generosidade da terra, pois, não tendo nascido nela, foi por ela reconhecido como nativo por conta do imenso respeito e atenção que dedicou às pessoas que ali nasceram.
E, ali, nascem crianças, muitas crianças, de olhos grandes como jabuticabas, olhos muito brasileiros, filhos dos de pele clara com os de pele escura ou avermelhada, filhos daqueles de ancestrais cabelos africanos com os de lisos cabelos tupiniquins.
São crianças que aprendem o que podem na escola e também junto a seus pais e mães pescadores, mercadores, eletricistas, pedreiros, barqueiros, cozinheiras, que, por sua vez, abandonaram a mesma escola ali pelos 10 ou 11 anos ainda curiosos mas desmotivados... e seguiram a rota já traçada que, para muitos, não leva ao destino mais abrangente e feliz.
Vale dizer que este amigo que nos apresentou Cumuruxatiba já havia nos oferecido uma casa para a implantação do Projeto. Pois bem, fomos lá para conhecer as pessoas, a cidade, sua energia e expectativas e também para nos apresentar, apresentar nossas idéias, nossos corações. Voltamos decididos a fazer este movimento, pois as indicações de que Cumuruxatiba é mesmo um belo local para iniciar o Projeto de Gente foram muito claras.
Durante os dias que passamos lá foi ficando mais claro o que estávamos percebendo: implantar o Projeto num lugar menos tensionado por forças de difícil conciliação como as que existem na cidade grande pode ser algo muito adequado e protetor para que toda a estrutura do Projeto se fortaleça e vingue (note que dizemos “menos tensionado”, não “distensionado”, pois claro que lá também existem tensões, porém menos intensas).
A carência de um campo de suporte mais abrangente para as crianças fora da escola também ficou bem evidente. As crianças são criadas em liberdade, porém liberdade não é suficiente, é necessário um cuidado, uma certa e delicada atenção para que os caminhos dessas crianças não se confundam enquanto ainda são descobertos por elas mesmas.
Conhecemos pais e mães que gostariam de ter pessoas que estudassem com seus filhos e filhas depois da escola porque eles mesmos não podem, não sabem como fazê-lo, pois muitos são quase analfabetos.
Não vamos “trombar” com a escola do local – ela é conduzida (conhecemos uma professora e conversamos bastante) com muito carinho e belas intenções -, vamos, fora da escola, brincar, estudar e estar junto das crianças com os conceitos do Projeto de Gente, da Pedagogia Libertária, das Escolas Democráticas e, aos poucos, demonstrar e apresentar novos conceitos e alternativas à escola local.
Também percebemos que podemos trabalhar com pessoas mais velhas, adultos que, por variados motivos, abandonaram a escola e gostariam de retomar os estudos.
Conhecemos também pessoas que vieram de fora para morarem em Cumuruxatiba: por exemplo, um escocês, fotógrafo. Ele está lá com a mulher há alguns anos e gostaria de fazer um trabalho com as crianças (se preocupa muito com as gravidezes precoces das meninas), tem a idéia de fazer um livro de fotos com os meninos e meninas. Boas pessoas, certamente bons parceiros. Além deles, um casal de São Paulo que abriu uma pizzaria e quer trabalhar com reciclagem.
Lembramos, então, do Instituto Kairós: uma organização especializada em economia solidária, consumo responsável, permacultura, etc, com quem podemos formar uma bela parceria; e do CPCD (Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento), em MG, que trabalha com educação e cultura popular desde 1984.
Fontes de sustentação econômica
O Projeto de Gente sustentar-se-á em três fontes:
1- Contribuições mensais dos membros da Associação Projeto de Gente*;
2- Recursos oriundos de pessoas físicas e empresas envolvidas em programas de responsabilidade social;
3- Pagamento de mensalidades pelos responsáveis pelas crianças atendidas pelo projeto; e
4- Busca sistemática de formas criativas e inovadoras de desenvolvimento sustentado. Exemplos: horta, reciclagem de lixo, artesanato, olaria, etc. Além disso, existe a idéia da criação de uma pousada e um cento de estudos – a Pousada Minas e o Centro de Estudos Gerais.
*Ver, em Anexos: Ata de Constituição da Associação Projeto de Gente, pg. 21
Critérios de Vagas e Mensalidades
Este item é de grande importância, pois coloca um conceito basilar do projeto – o da aceitação integral da diversidade humana, isto é, o Projeto de Gente não discriminará qualquer criança por qualquer motivo (embora, com humildade verdadeira, possa aceitar eventuais limitações em sua capacidade de bem cuidar uma certa e especial criança).
Eventualmente nos confrontaremos com certos limites: espaço físico e/ou falta de recursos financeiros para a contratação de pessoal para dar os cuidados necessários às crianças. Nestes casos estaremos sempre abertos para esclarecer os motivos destes limites a todos os interessados e buscar, juntos, eventuais formas de melhor lidar com a situação.
Na busca da construção de uma estrutura equânime e, justo por isto, exigindo profunda responsabilidade de todos os envolvidos, adotaremos o seguinte critério: naturalmente será conhecido o custo de uma criança atendida pelo Projeto de Gente - que seria o teto de uma mensalidade -, porém os responsáveis pelo pagamento da mensalidade acordarão com o Projeto o efetivo valor a ser pago. Não existirá, portanto, um piso pré-estabelecido. Todos pagarão um certo valor, seja qual for - R$ 0,20 -, que será exatamente ajustado à realidade de cada família ou responsável.
Teremos sempre em mente uma recente pesquisa do IBGE que revela – a já conhecidíssima – disparidade na distribuição de renda da sociedade brasileira: poucos, muito poucos, detêm a imensa maioria dos recursos econômico-financeiros do país, enquanto uma multidão divide o que, literalmente, restou.
Uma atitude reorganizadora desta disparatada estrutura pede (1) o intercâmbio dos construtores deste cenário guetificado – um dos propósitos do projeto – e, além disso, pede também (2) a atenção para a importância de critérios firmes de Inclusão e Responsabilidade Social.
Portanto, também é preciso que fique perfeitamente claro que os recursos advindos de doações de empresas e pessoas físicas interessadas em colaborar serão destinados à formação de um fundo para as crianças que freqüentarão o Projeto de Gente. É por este motivo que buscamos, como descrito no item anterior, o patrocínio de empresas que apóiam ações de Responsabilidade Social e a colaboração dos associados à Associação Projeto de Gente.
A Dinâmica do Projeto de Gente
O Projeto de Gente oferecerá um espaço de atendimento para crianças a partir de 3 anos de idade, com base em uma gestão democrática, em que educadores, educandos, pais e mães, funcionários e pessoas diretamente ligadas ao seu funcionamento irão compartilhar as responsabilidades pela comunidade.
A gestão democrática, vale dizer, para ser realmente efetiva, necessita de alguns pontos básicos de sustentação, a saber:
1- o acesso às informações deve ser igual para todos, para que as decisões sejam tomadas de forma colegiada, através das assembléias, isto é, a estrutura organizacional não se dá através da tradicional estrutura piramidal, onde algumas instâncias detêm mais informações e, portanto, poder;
2- a rotatividade dos cargos deve ser garantida – sempre através do voto dos membros da comunidade - para que não se corra o risco da criação de estruturas centralizadores e, eventualmente, empobrecedoras;
3- os grupos de trabalho devem ser pequenos para garantir a participação de todos; e
4- a garantia da reversibilidade das decisões, isto é, as decisões das assembléias são sempre passíveis de revisão e reajustes através de novos debates e votações.
As atividades com as crianças serão organizadas em tempo integral (7h30 às 17h30) e estarão – com sua estrutura plenamente desenvolvida - distribuídas em 4 campos básicos coordenados por profissionais, cujo número será estipulado pela natureza do trabalho a ser desenvolvido e pelo número de crianças a ser atendido.
A seguir, uma sucinta descrição dos quatro campos organizacionais das atividades. Nestes campos organizam-se os conteúdos dos Parâmetros Curriculares Nacionais, porém, funcionam como uma referência organizadora de saberes e conhecimentos, não engessando o caminho de aprendizado das crianças. Este caminho será construído como um mosaico, como veremos adiante.
Tendo em seu cerne a observação atenta à Individuação da criança, todos os quatro campos terão igual importância. Provavelmente, por variados motivos (interesse das crianças, falta de espaço físico, recursos humanos e financeiros disponíveis), alguns deles serão viabilizados já na implantação, enquanto outros serão conquistados ao longo do desenvolvimento do projeto.
1- Campo Organizacional das Ciências e Línguas: as crianças serão convidadas, por exemplo, a realizar pesquisas em variadas fontes (livros, internet, muros da cidade, etc), individualmente ou em grupo, sob a constante supervisão dos educadores, que assim poderão aprofundar os conteúdos pedagógicos, propor linhas de estudo, dar aulas diretas; outros alunos poderão organizar grupos e combinar temas de estudos pelos quais tenham interesse (e que também serão aproveitados pela equipe no sentido de estabelecer correlações com os conteúdos pedagógicos indispensáveis ao aluno em sua caminhada de construção do conhecimento); os educadores serão instrumentos de estímulo circulando pelos grupos e entre as crianças; será sempre realçada a possibilidade de se aprender de forma lúdica e solidária, afinal, um convite ao prazer de aprender. Compõem este campo:
Campo da Informática: além da introdução à informática, haverá o estímulo às discussões sobre a dinâmica da informação e as complexas questões ligadas à rede de computadores – respeitados, evidentemente, o grau de discernimento das variadas faixas etárias;
Campo da Ecologia e Meio Ambiente: dedicado a um movimento de ampliação de consciência e valorização da vida em qualquer de suas manifestações; neste campo poderá se organizar aprendizado, junto ao que denominamos natureza, através de passeios, jardinagem e horta, por exemplo.
Campo da Culinária: o aconchegante e alquímico espaço da cozinha será o cenário de lições sobre como cuidar da boa nutrição e a luta contra o desperdício; belo local para exercício de autonomia e compartilhamento.
2- Campo Organizacional das Artes: através do exercício da criatividade, também do prazer, uma gama imensa de conhecimentos e saberes se fazem. Compõem este campo:
Campo da Leitura, Poesia e Prosa: leitura e criação de textos;
Campo do Teatro: encenação de textos clássicos, populares ou criados pelo próprio grupo, além do estímulo à arte de contar histórias;
Campo das Artes Plásticas: expressão através do desenho, pintura, escultura, etc;
Campo da Música e do Canto: “Todas as coisas e todos os seres produzem sons de acordo com sua própria natureza e com o estado particular em que se encontram”. Essa citação foi feita pelo Lama budista Govinda e achamo-la mais que suficiente para explicar o campo organizacional da música neste trabalho sempre ocupado com a atenção à Individuação de suas crianças.
3- Campo Organizacional do Corpo em Movimento: atenção às manifestações do corpo e estímulo à consciência corporal. Neste campo estarão incluídos:
Campo da Dança: "Há pontos em comum que se conectam em todas as classes sociais e em todos os povos. A diversidade cultural está enraizada em cada um de nós e, quando unimos extremos no palco, o resultado surpreende e aí percebemos que todas as possibilidades estão dentro de cada um e que a interação existe", explica Ivaldo Bertazzo.
Campo dos Esportes: futebol, vôlei, tênis, natação, judô, capoeira, etc (o espaço aberto por este campo é amplo e favorecedor de alternativas menos usuais como: tai-chi-chuan, xadrez e outros. Realce aos aspectos filosóficos dos esportes, observação sobre o tema da competitividade, da colaboração, o aspecto psicomotor, etc
4- Campo Organizacional do Fazer Nada: valorização do velho e bom recreio, espaço de liberdade e criatividade, momento de puro lazer, do puro brincar, enfim, momento de pureza e de livre expressão. Esse campo será responsável por sugerir e organizar passeios e visitas a espaços públicos, etc.
As funções dos profissionais (educadores e mestres) de cada núcleo são:
1- Oferecer conhecimento específico;
2- Observar a criança durante suas atividades, considerando, além de sua aptidão e desenvolvimento, sua maneira de reagir às circunstâncias que a rodeiam, como ela encara seus erros e acertos, como aceita ajuda e “toques”, sua tranqüilidade, inquietude, raiva, prazer ou medo ao participar de jogos e trabalhos individuais ou em grupos, etc;
3- Organizar relatos periódicos destas observações.
Encontros formais, informais e atividades conjuntas entre todos os trabalhadores do projeto, serão realizados propiciando o espaço para troca destas observações. Deste modo, questões levantadas pela natural atenção de um componente terão a chance de serem complementadas pela observação de outro que – por ser outro – poderá identificar um diferente aspecto daquela criança. O ganho será imenso para a criança atendida, já que a complexa estrutura de cada um poderá, com mais chance, ser percebida, valorizada e integrada numa compreensão mais ampla.
Os profissionais do projeto terão contato com estas questões através de treinamentos e conversas constantes sobre os temas conceituais e as intenções e funções de suas observações.
É importante salientar que esta demanda não exige formação psicoterapêutica por parte de todos os profissionais envolvidos no Projeto de Gente.
Um dos sentidos do verbo grego do qual deriva a palavra terapia é “servir, cuidar”. Deste conceito sim não abrimos mão, cada trabalhador do projeto estará se esforçando para vivê-lo sempre e sempre mais integralmente.
Além disto, a palavra cuidado tem uma de suas possíveis raízes no latim coera, que significa “cura”, mas não simplesmente cura. Indicava cura alcançada através de cuidado amoroso. Amoroso cuidado: esta é a essência do trabalho terapêutico... e também a própria essência do Projeto de Gente.
Neste sentido, podemos considerar os trabalhadores do Projeto de Gente como terapeutas, pois estarão cuidando das crianças com profunda atenção e absoluto respeito, mas não necessariamente psicoterapeutas. Serão pessoas em constante atitude de desvelo, interesse e envolvimento para com cada criança. Esta é a exigência fundamental feita a cada participante, e o pré-requisito necessário é a mais ampla disponibilidade para exercê-la. Para o aprimoramento destes conteúdos serão realizados constantes exercícios de capacitação através de debates, palestras e discussões para que cada um possa ter, como já dito, total conhecimento das motivações e propósitos do projeto.
No Projeto de Gente todos os Educadores são orientadores de todas as crianças, isto é circulam pelos grupos atendendo as necessidades comuns e encaminhando as específicas. Deste modo, todos terão contato com todas as crianças e poderão, portanto, colaborar (no mais real sentido de co-laboração – laborar junto) na atenção à Individuação trocando observações com seus colegas. Entretanto, para que se assegure o desenvolvimento de cada criança, um educador será responsável por um grupo delas em parceria com um eventual mestre de projeto. A proporção será de 12 a 15 crianças para 1 educador. Este educador terá, pelo menos, dois encontros semanais – mesmo que informais - com cada um.
Na medida que se perceba o interesse específico de uma criança, o educador poderá elaborar – em comum acordo com a própria criança - um projeto de trabalho; alguns exemplos, simples mas importantes: através do interesse pela construção de um balão de ar quente, uma criança pode aprender a ler e escrever, enquanto outra – que já sabe ler – estará aprendendo temas da Matemática, Geometria ou Física.para seu aprendizado. O educador poderá convidar uma pessoa capacitada neste campo. Estes são os Mestres, já citados acima, - pescadores, eletricistas, engenheiros, médicos, padeiros, cozinheiras, etc - que desenvolverão um projeto específico para estas crianças. Estes mestres são pessoas com particular interesse, cuidado e paixão por certo saber, que se dedicam a um ramo de atividade, que têm habilidade ou prática especial e compartilham seus saberes – seu conhecimento teórico, seu saber fazer, seu saber ser com as crianças. Garante-se, desta forma, uma importante expressão de diversidade de competências e saberes, mesmo que não referendados pelas instituições acadêmicas tradicionais.
Poderemos, assim, construir um Mosaico do Conhecimento para cada criança.
O Mosaico do Conhecimento: Existe, sem dúvida, um determinado quantum de conhecimento formal considerado fundamental para que alguém possa manifestar-se, pessoal e socialmente, de modo mais pleno em certa área do saber. Entretanto, o percurso a ser percorrido por cada um na aquisição destes conhecimentos pode, e deve, ser acordado com seus interesses.
O Mosaico, desenvolvido pela criança, pelo educador e por um eventual mestre, mostra, em uma folha de papel, o caminho percorrido pelo estudante na aquisição do conhecimento – o que inclui os itens constantes nos Parâmetros Curriculares Nacionais. Um desenho particular e revelador dos interesses desta pessoa. Particular, porém, construído coletivamente e em interação possível com as peças do Mosaico de outros meninos e meninas; assim, também refletirá o percurso de aprendizagem e experiência dos membros da comunidade envolvidos no projeto. Cria-se, deste modo, uma proposta de aprendizado pessoal, porém cooperativa e não segmentada.
No Mosaico não cabem as divisões habituais das disciplinas, em níveis ou em cursos que, freqüentemente, determinam a formação de retalhos desconexos – promovendo a constante reclamação da criança de que ele não sabe para que está estudando aquela coisa -; ao contrário, esta forma de gestão de conhecimento produz uma organização dos saberes sem separações e com possibilidade de reorganização permanente.
Vale salientar que o Mosaico não é transdisciplinar, nem pluridisciplinar (um mesmo tema estudado por várias disciplinas) ou interdisciplinar (quando métodos são transferidos de uma disciplina para outra); entretanto, não descarta as disciplinas. Apenas as percebe como pedras do Mosaico, pedras que contêm em si outras pedrinhas – outros mosaicos -, isto é, outros saberes que serão explorados à medida do interesse da pessoa e que não se encerram em si mesmos.
À medida que avançam em autonomia – um dos objetivos do Projeto de Gente – as crianças poderão elaborar, sempre com a supervisão do educador, o seus plano de estudos (onde planificam o trabalho e, de fato, se comprometem a cumprir estes objetivos).
Para melhor compreensão, vamos desenhar um imaginário, mas não impossível, mosaico: um grupo de crianças – ou um educador – propõe remover uma pedra que existe em um recanto do quintal da casa onde funciona o Projeto. Segundo eles, ali poderia ser construído um campo de jogos, ou uma horta, ou uma piscina de areia para os pequenos.
A idéia é levada a debate, já que implica em uma intervenção num espaço comum. Alguém argumenta que esta remoção pode não ser adequada do ponto de vista ambiental; entretanto, um estudo de viabilidade não é rechaçado.
Assim, o grupo organiza o “Projeto Tem Uma Pedra No Meu Caminho”.
Crianças pequenas, interessadas na possibilidade de uma piscina de areia, vão aprender a ler através das palavras: pedra, piscina, areia, pedrada, pedreira, etc.; outras, mais velhinhas, vão aprender sobre eras geológicas, tipos de solos e minerais, etc., por conta do mestre em geologia que irá estudar, com eles, se a pedra é original daquele terreno ou se foi depositada ali; outros mais estudarão as possíveis formas de removê-la – o princípio das alavancas, conceitos antigos e modernos sobre a lei da gravidade, física enfim, clássica e moderna -, além de princípios da química – combinações de elementos explosivos, por exemplo -; o menino que lembrou da poesia de Carlos Drummond de Andrade, e propôs o nome do projeto, organiza um grupo (pequeno a princípio) de pessoas interessadas em poesia e aprenderão sobre poetas brasileiros, seus estilos, elementos da língua portuguesa, etc.. Além disso, elaboraram uma apresentação de poesia, música e teatro, depois de assistirem a um vídeo de um espetáculo de Pedro Paulo Rangel baseado em letras de Chico Buarque de Holanda.
Um vasto arco dos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) estará abrangido por estas atividades que serão, cuidadosamente, anotadas formando, assim, um percurso de aprendizado e conhecimentos adquiridos por cada estudante envolvido: o seu Mosaico de Conhecimentos.
Do mesmo modo será organizado o Mosaico da Pessoa: o colorido desenho da criança que vai, dia a dia, revelando-se em sua sensibilidade própria para quem quiser, de verdade, vê-la. Este trabalho será realizado com a colaboração de todos os trabalhadores do projeto, e não apenas do educador responsável por uma criança, embora este seja aquele que se compromete a registrar – e partilhar - o resultado das observações.
Um novo exercício de imaginação pode nos auxiliar a compreender o objetivo – e, talvez, o cerne deste projeto de trabalho – do Mosaico da Pessoa.
Vamos conhecer Lucas, um garoto de cerca de 11 anos, estudante no Projeto de Gente há mais ou menos 6 meses: um dia o mestre que orientava o futebol comentou, com o pai do menino, como Lucas estava mais solto em quadra, jogando melhor, mais alegre, menos ansioso. Disse mais ou menos o seguinte: “Lucas está encontrando seu lugar no time. Ele não é do tipo agressivo, não se sente bem como beque que precisa parar uma jogada; nem é o cara que busca os holofotes, não gosta disso, não é o goleador. Lucas gosta mesmo é de servir aos companheiros, passar a bola para que o outro chute a gol. Outro dia sugeri, conversando com ele, que jogasse no meio de campo, e foi ótimo. Ele se sentiu mais seguro e adequado... mais em casa. Agora, mais à vontade, chega a arriscar um drible mais difícil ou mesmo um chute a gol. Está descobrindo habilidades que nem mesmo ele sabia que tinha. Já não se cobra tanto porque na maior parte do jogo está relaxado, jogando como gosta, do jeito que ele é.”
Um dos educadores, que trabalhava com Lucas num projeto de matemática, ouvindo os comentários do mestre de futebol, aproximou-se e participou da conversa lembrando que Lucas gostava mesmo de trabalhar em grupo, muito mais do que quando colocado “sob as luzes” de perguntas diretas e individuais. Deste então estimulou mais a participação coletiva de Lucas e reparou como ele se soltava com muito mais facilidade e bem estar, ajudando com grande criatividade nas soluções de questões levantadas pelos companheiros.
Algum tempo depois Lucas se interessou pelo projeto de teatro, e muitos se lembraram que ele costumava ficar observando os trabalhos de palco, mas sempre desqualificava a atividade quando era, eventualmente, convidado a participar.
Uma estrutura defensiva havia se rompido naturalmente em Lucas, e ele pôde desenvolver aspectos que estavam impedidos até então.
Vale lembrar Fernando Pessoa:
“A criança que fui chora na estrada
Deixei-a, ali, quando vim ver quem sou.
Mas hoje vendo que o que sou é nada,
Quero buscar quem fui onde deixei.”
No início do ano letivo será realizada a Assembléia, constituída pela totalidade das crianças, educadores, mestres, funcionários, pais, mães e pessoas diretamente ligadas ao empreendimento e que dela desejem participar. Cada um será co-participante, com sua idade e possibilidade de discriminação, na preparação dos projetos de trabalho, da organização interna do projeto, decidindo democraticamente quais os Direitos e Deveres que consideram fundamentais e que serão seguidos por toda a comunidade. É o fórum deliberativo por excelência do Projeto de Gente. As Assembléias serão realizadas ao início e final de cada semestre; mas, Debates, isto é, espaços menos formais que uma Assembléia, para debates e avaliação do andamento trabalho, acontecerão mensalmente (ambos – assembléia e debate - podem, naturalmente, ser necessários em caráter extraordinário).
Também na Assembléia serão organizados os Grupos de Responsabilidade, constituídos por crianças, educadores, mestres e funcionários, que manterão em ordem determinados setores do Projeto (por exemplo: administração, manutenção, limpeza básica, lixo seletivo, biblioteca, material artístico e esportivo, mural, jornal, equipe consultiva – que recebe queixas, pedidos, solicita e organiza debates e Assembléias, etc.). Seus componentes se revezarão nessas atividades ao longo do ano – em certos grupos será possível e necessário que algumas pessoas se mantenham fixas por tempo maior que em outros para melhor cumprimento das demandas do grupo. Estes grupos têm a função de agilizar as questões do cotidiano. Suas decisões serão sempre apresentadas nas assembléias, debates e rodas e por elas referendadas.
Para alimentar as Assembléias e debates existe o Grupo Organizacional, que tem por função debater e sugerir soluções para eventuais problemas e para o desenvolvimento natural do trabalho. Este grupo será formado pelos educadores, crianças, mestres, pais, mães, investidores financeiros, funcionários, aliados estratégicos e eventuais convidados em alguma área específica. O Grupo Organizacional não tem caráter deliberativo sob nenhuma hipótese e se reunirá, pelo menos, 2 vezes por semestre.
Diariamente, a comunidade reúne-se em uma atividade denominada Roda, oportunidade em que se resolverão eventuais conflitos, circunstâncias do cotidiano que demandam respostas rápidas, etc....
Haverá um Espaço de Atendimento aos Responsáveis com possibilidade de encontros regulares, incluindo a possibilidade de prática psicoterapêutica (individual, familiar ou em grupo) junto aos responsáveis pelas crianças. Isto possibilitará oportunidade de eventual reorganização na estrutura de vida destes adultos; além, é claro, dos ganhos naturais para os meninos e meninas acompanhados por estas pessoas.
Avaliação Processual
Atividades dos núcleos
Indicadores do Processo
Meios de Verificação
Cuidadosa observação da Individuação das crianças participantes do projeto, criando, deste modo, condições para melhor desenvolvimento e integração destas crianças à vida; acompanhamento do desenvolvimento pedagógico de cada criança em sua escola.
- Interesse e participação
- Socialização ( também junto à família e escola )
- Percepção de bem estar e alegria no cotidiano da criança
- Reações mais adequadas frente a variadas situações. (por exemplo, quando contrariado )
- Aumento do nº de interessados em participar das atividades do projeto
- Relatórios dos profissionais sobre suas observações diretas
- Entrevistas com familiares e responsáveis
Estratégia para Implementação do Projeto de Gente
Visando maior eficiência, a estratégia para a implementação do Projeto de Gente foi dividida em duas etapas. Uma primeira fase de implantação e a segunda, denominada execução.
1a FASE – IMPLANTAÇÃO
Nesta fase, três (03) pessoas estarão trabalhando – 02 em horário integral e 01 em tempo parcial -, por cerca de três meses (maio/junho/julho), para mais ouvir as necessidades e propostas dos moradores, para apresentar o trabalho; enfim revolver a terra, semear a semente – o que já foi iniciado na semana que por lá vivemos – adubá-la e irrigá-la; preparar o terreno para o início das atividades em julho de 2007.
Durante esse período de três meses também estaremos organizando, de acordo com a demanda que surgir, o quadro de educadores necessário para as atividades regulares do 2º semestre.
Cronograma da 1a Fase (3 meses) – Implantação
1. Seleção E Capacitação De Pessoal
1.1 Pesquisa e seleção de pessoal qualificado para as atividades do projeto.
1.2 palestras, oficinas e debates de capacitação para o trabalho no Projeto
2. Instalação Do Espaço Físico
2.1 Obras de implantação e aquisição de mobiliário
3. Apresentações e palestras para os interessados
3.1 Elaboração e planejamento das palestras e apresentações
3.2 Entrevistas com os pais e mães (ou responsáveis) interessados
2a FASE – EXECUÇÃO
A 2ª fase será planejada a partir dos dados e conhecimentos obtidos pela equipe de implantação.
A Equipe Organizadora da Escola Projeto de Gente
Por cerca de 3 anos e meio, nos horários vagos de suas atividades profissionais, reuniram-se para trabalhar neste projeto as seguintes pessoas: Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti, médico homeopata e psicoterapeuta; Elza Maria Guedes Marcondes Reis, professora e terapeuta; Ricardo Santos Rodriguez Santamarina, advogado; Cauby Carvalho do Amaral, engenheiro; Jorge Vicente de Souza, empresário; Marcio Moreira França, arquiteto; e Daniel Novaes, foto-jornalista, que nos apresentou Cumuruxatiba.
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Nestes anos, basicamente em reuniões noturnas, a princípio uma vez por semana, finalmente duas, foi elaborado o Estatuto da Associação Projeto de Gente; aprofundados os princípios fundamentais do projeto; realizado o Curso de Formação em Escolas Democráticas e criado este documento, incluindo o levantamento do orçamento geral do projeto. Além disso, foi criada a Associação Projeto de Gente (CNPJ-05.959.844/0001-88).
Também foi de inestimável importância as participações de João Augusto Bastos de Mattos, engenheiro e incentivador deste a 1a hora; Ruth Reis, designer gráfica e a sensível criadora do logotipo do Projeto de Gente; José Cláudio Sardinha, executivo e estimulador da idéia; Cláudia Costa, professora e empresária que cedeu as dependências da Escola Catavento para a realização de um Curso de Introdução às Escolas Democráticas - que contou com a participação de Vicente Concílio, coordenador de Arte da Escola Lumiar (SP) -; Edgard Coelho de Andrade, sempre atento e oferecendo novas idéias e Luiz Cláudio Barreto, com importantes idéias e intervenções no documento final.
Este documento foi desenvolvido pela equipe do Projeto de Gente e vários colaboradores - Julie Kohlmann, Paulo Henrique Macambyra, Maria Walburga dos Santos, PH Doin, Helena Singer - a quem profundamente agradecemos.
Rio de Janeiro, abril de 2006
Alexandre Luiz Andrade Cavalcanti
Elza Reis
Marcio M. França
Jorge Vicente de Souza
Ricardo Santamarina
Cauby Amaral
Daniel Novaes
ANEXOS
Sobre a Origem do Nome
Certo dia, um sujeito ouviu uma mãe comentar que seu filho, com mais ou menos dois anos de idade, não entendia nada do que ela estava dizendo porque ele era apenas um “projeto de gente”.
Ouviu e sentiu seu coração apertado ao reconhecer quantas vezes as crianças são desqualificadas e atropeladas por este tipo de atitude; ouviu e recordou-se quantas vezes ele, seus irmãos e amigos foram tratados com o mesmo desprezo quando eram crianças; ouviu e percebeu que muitas vezes isto não acontecia por má fé, ou exatamente desamor, mas pelo hábito de se considerar as crianças incapazes de ter percepções e sentimentos sobre o que se passa à sua volta, como se fossem nada, ou apenas um esboço, um projeto.
Olhando a criança e percebendo a profunda tristeza em seu olhar, o sujeito reafirmou a certeza de que aquela criança era um projeto sim, mas um projeto de vida que merecia toda atenção e cuidado para desenvolver-se livre e respeitada desde seu primeiro momento no planeta: um ser sensível e único, singular.
Lembrou-se da canção:
“...já podaram seus momentos, desviaram seu destino, seu sorriso de menino quantas vezes se escondeu...”,
e então, – embora não acredite que alguém possa exata e deterministicamente desviar o destino de outra pessoa, mas sabe que um sorriso pode de fato se esconder... e tão bem que, muitas vezes não é reencontrado - deu-se conta que encontrara nome para o empreendimento que vinha elaborando há alguns meses.
O Arquétipo da Escola Projeto de Gente
O belo mito grego que narra a história do Centauro Quíron, o médico ferido, vai ilustrar com poética propriedade a alma deste empreendimento, pois Quíron descobriu, na própria pele, o que muitas culturas, algumas muito antigas, denominam a Imagem Primordial da Alma: o misterioso centro da personalidade de cada indivíduo - a semente que tenta a todo custo desenvolver-se e manifestar-se, o verdadeiro “repositório do destino individual”, com disse Hillman.
A história de Quíron:
Filho do deus Crono e de Fílira, era também divino e possuía, portanto, o atributo da imortalidade.
Meio cavalo-meio humano, Quíron identificava-se com os seres humanos, era amigo deles e ensinava-lhes música, a arte da guerra e da caça, além de exercer a medicina, pois conhecia as propriedades curativas de certas ervas. Entretanto, ainda não tinha consciência do quanto conheceria e compreenderia os humanos, nem do quanto sua forma de ser médico se desenvolveria.
Amigo de Hércules, o centauro foi, inadvertidamente, atingido por uma flecha envenenada disparada por ele. O veneno mágico provocava uma ferida que, embora não matasse, não cicatrizava, nunca curava. Uma ferida que, como toda ferida, quando tocada doía muito, insuportavelmente. Quíron aprendeu que precisava proteger aquele lugar.
Para ele, proteger significava cuidar, e, para cuidar da melhor maneira, precisava então conhecer bem aquele ponto de sensibilidade.
Pois foi exatamente por isto, que Quíron compreendeu profundamente quem eram os humanos.
O centauro ferido percebeu que todos possuem um lugar em seu ser de extrema sensibilidade; uma ferida, podemos dizer. Uma ferida que nunca fecha. Percebeu que isto não acontecia apenas no corpo, estava de fato presente no interior de cada um, em seu íntimo. Havia uma ferida na alma.
Percebeu - por sentir em si mesmo a dor...e, daí, o medo de vir a sentir esta dor – que, embora todos possuíssem uma ferida, em cada um ela era única, absolutamente pessoal. De fato, constituía uma sensibilidade que identificava aquela pessoa.
Aprendeu que se reconhecêssemos, aceitássemos e cuidássemos da ferida, vale dizer, se reconhecêssemos, aceitássemos, nossa sensibilidade, poderíamos viver com maior tranqüilidade e serenidade, pois, ela – a ferida - não impede a vida; pede apenas atenção e cuidados. Na verdade, em seu sentido mais profundo, esta sensibilidade revela a vida, pois será de acordo com ela que aquela singular pessoa se sentirá realmente viva.
Agir assim significa reconhecer quem cada um é, aceitar quem é e encontrar a melhor maneira de cuidar de si mesmo.
Compreendeu que se nos rebelássemos contra esta sensibilidade pessoal, negando-a, estaríamos inevitavelmente construindo um grande mal estar. Quíron, o médico ferido, apontava para a gênese da doença em seu sentido mais radical.
Na gruta do Monte Pélion, onde vivia, o centauro orientou vários curadores, entre eles Jasão e Asclépio, sempre ensinando que a possibilidade de cura mais profunda estava no contato e aceitação com nossa sensibilidade mais íntima, com nossa condição única de ser.
Outro aspecto de imensa importância percebido por Quíron foi que, quando conhecemos e respeitamos a nós mesmos, a chance de nos abrir para conhecer e respeitar o outro aumenta muito. Vislumbrava, por conseguinte, a possibilidade de construção de uma sociedade mais justa e sadia.
Entretanto, sua condição imortal trazia-lhe angústia infinita. A imortalidade era incompatível com a vida, pois a dor, embora conhecida e cuidada era, para ele, eterna e, por isso, insuportável. Os humanos podiam morrer, o médico ferido não.
Compadecido, Zeus - ouvindo os conselhos de Hercúles, infatigável em sua luta por minorar o sofrimento que involuntariamente provocara no amigo -, aproveitou uma circunstância favorável e trocou a imortalidade de Quíron pela mortalidade do humano Prometeu, que nascera mortal, mas conquistara, por suas atitudes durante a vida, a condição divina.
O médico pôde, enfim, morrer.
Homenageado pelos deuses transformou-se na constelação de Sagitário, o centauro que lança a flecha, que um dia o envenenou, mas agora simboliza a trajetória daquele que, através do conhecimento e da aceitação profunda de si mesmo, soube perceber também a dor e sensibilidade do outro e ensinou como cuidar desta condição. Além do mais, reconheceu aí a origem da doença – e a busca da cura - no ser humano.
Quíron nos fala, portanto, da necessidade de reconhecer e respeitar quem somos e quem cada um é; de se conhecer a vocação vital de cada um, não apenas a vocação profissional como é nosso hábito, mas a profunda vocação do ser; e, sendo, contribuir com o que melhor temos a oferecer para a organização da vida abundante.
O Médico Ferido coloca esta possibilidade na base da construção de uma vida realmente saudável. Leva radicalmente a sério a antiga citação: “mente sã em corpo são.” Radicalmente, pois, para ele, não há um sem outro, nem outro sem um.
Junito Brandão, dedicado ao estudo e ensino das culturas antigas, ouvia os mitos e dizia:
“Cada nação, cada cidade, cada povo, cada casa, cada família, cada homem tem o seu Centro do Mundo, seu “ponto de vista”, seu ponto imantado, que é concebido como ponto de junção entre o desejo-necessidade - coletivo ou individual – e... que (alimenta)... a possibilidade sobrenatural de satisfazer a esse desejo-necessidade...”
Este parágrafo está em completa harmonia com o significado do mito de Quíron, o mestre de Asclépio – o Esculápio dos latinos -, filho de Apolo e da mortal Corônis, tão talentoso na arte de curar que chegou a ressuscitar algumas pessoas, e foi, por isso, fulminado por Zeus que temeu um possível transtorno da ordem do universo.
Asclépio, um dos deuses mais longevos de todo o panteão divino grego, também vai nos ajudar a compreender o Projeto de Gente.
Ele criou uma Escola de Medicina e Centro de Saúde em Epidauro, na Grécia, que seguia os ensinamentos de seu mestre, sintetizado no conhecido dito: “Conhece-te a ti mesmo”.
Na entrada de seu santuário de cura, gravou as seguintes palavras:
“Puro como aquele que entra no Templo. Pureza significa ter pensamentos sadios.”
Puro, no sentido do pensamento grego, é aquele que busca, incansável, alcançar o seu centro, seu templo.
Em profunda sintonia consigo mesmo, ele terá pensamentos, sentimentos e ações saudáveis e construtivos, puros e originais. Neste centro muitos identificam o que é chamado de divino - um divino que é também humano - ao qual devemos nos religar, respeitar, amar e oferecer ao mundo.
Em Epidauro, todas as ações de cura tinham como objetivo promover o autoconhecimento, a alcançar a mais pura consciência de si mesmo, ponto de partida para a transformação dos sentimentos e ações reativas e equivocadas em atitudes harmônicas e saudáveis.
Lá havia um pequeno teatro, o Odeon; um Estádio, para competições esportivas; um Ginásio, para exercícios físicos; também um grande Teatro; e uma Biblioteca. Todo este conjunto visava a elevação espiritual e a humanização dos que procuravam cuidar-se. Havia também uma sala onde as pessoas dormiam, sonhavam e contavam seus sonhos – a mais arcaica fonte de contato com nosso mundo íntimo - para que fossem interpretados pelos médicos, que então prescreviam tratamentos, com uso de cores e águas, por exemplo.
ATA DE CONSTITUIÇÃO E ELEIÇÃO DA DIREÇÃO DA ASSOCIAÇÃO PROJETO DE GENTE
Aos dezenove dias do mês de março de 2.003, na rua Pires de Almeida, nº 61, apto. 602, na cidade do Rio de Janeiro, reuniram-se em Assembléia Geral as pessoas que esta subscrevem, atendendo a convocação previamente feita, maiores e capazes, com o fim de constituírem uma sociedade sem fins lucrativos, como de fato fica constituída a “Associação Projeto de Gente”, também designada pela sigla “Progente”. Inicialmente, os presentes indicaram para presidir a assembléia o Sr. Alexandre Cavalcante que, tendo aceito, convidou a mim, Elza Reis, para secretariar o ato. Isto posto, passou-se a leitura do Estatuto da “Associação Projeto de Gente”. Lido o Estatuto, o Sr. Presidente submeteu-o à discussão e votação, ao que se deu assentimento unânime. A seguir, passou-se à eleição dos núcleos de direção da “Associação Projeto de Gente”, qual sejam: Núcleo Coordenador, Núcleo Auditor e Núcleo Consultivo. Com seus membros constantes de relação anexa, a qual, juntamente com o estatuto social, passa a fazer parte integrante da presente ata, foi apresentada chapa única, que foi eleita por aclamação. Declarados estes eleitos, foram os mesmos neste ato empossados para o biênio de 19/03/2003 a 18/03/2005. Nada mais havendo a tratar, o Sr. Presidente agradeceu as presenças e deu por encerrada a sessão, da qual foi lavrada a presente ata, que vai devidamente assinada para que se cumpram os fins legais.
Rio de Janeiro, 19 de março de 2003.
ALEXANDRE CAVALCANTI ELZA REIS
(PRESIDENTE) (SECRETÁRIA)
sexta-feira, 3 de agosto de 2007
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